quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

- JESSE: Amor incondicional e eterno


Cada vez mais eu percebo o quanto o presente é valioso. Devemos viver cada segundo e aproveitar todos os momentos que a vida nos propõe. O tempo passa, e muito rápido. De repente, quando menos esperamos, o presente vira passado e nos restam apenas as lembranças e a saudade.

Há 14 dias atrás, a minha amada companheira buscou algo maior para ela, enquanto para mim ficaram as memórias. Depois de uma enorme batalha pela vida, a nossa amada Jesse teve que ir para o céu. Às vezes ainda me pego perguntando: "Que loucura, será que isso realmente aconteceu? Não é possível que ela não esteja mais aqui comigo". A dor desta perda é imensurável, não consigo descrever nem de perto o que eu sinto e nem o tamanho do vazio que ficou dentro de mim. Sei que isso é passageiro, e este buraco dentro de mim vai embora, pois a Jesse veio para preencher as nossas vidas, para somar a nossa alegria, multiplicar a nossa felicidade, e transformar o nosso amor em infinito. Qualquer sentimento de solidão passará quando as lembranças se fortalecerem e as memórias se solidificarem. Sei que ela não gostaria de nos ver chorando, mas hoje as lágrimas ainda são inevitáveis. E mais do que isso, sei que tudo o que ela fez (e faz) é para conseguir de nós (marido e eu) um sorriso. Não importa se o sorriso fosse tímido ou uma enorme gargalhada, o importante é que ela sempre conseguiu que nós estivéssemos bem ao lado dela,
com simples atitudes

“(...) Sei que você sempre fez de tudo para sorrirmos e nos proteger, por isso minha princesa, desculpe pela falta de sorriso dos últimos dias, sabemos que não foi esta a razão de você ter vindo para as nossas vidas, mas ainda estamos tentando entender tudo isso... A história que você, Jesse, escreveu na nossa vida é repleta de muito amor e portanto, não permitiremos que todo o caminho de alegria traçado por você seja em vão. Não permitiremos um vazio dentro de nós uma vez que você veio para nos completar e encher as nossas vidas. Deixaremos que a tristeza seja temporária. Estamos certos de que todo o seu carinho e dedicação são mais fortes do que a ausência física. Sabemos que em breve estaremos novamente sorrindo através das lembranças. A saudade é imensa, mas é apenas um sinal de que um grande amor foi construído. Um dia, estaremos juntas novamente (...)”  


A Jesse foi um suporte enorme para mim, principalmente nesta fase de imigração e quando ainda perdi meu outro cachorrinho, o Willy, há 4 anos atrás. Até hoje, não sei se ela me tirava da realidade ou me fazia por os pés no chão, aliás, acho que fazia os dois. O fato é que em todos os meus momentos de desespero, solidão e medo, era ela quem estava lá por mim, dizendo apenas com o olhar: “mamãe, tudo vai ficar bem”. Ela sempre teve um jeitinho especial de fazer muito por mim. Não sei explicar como, mas ela me compreendia. Sempre sabia quando eu estava feliz, triste, entusiasmada, irritada, ou qualquer coisa que fosse. Independentemente do meu comportamento, ela sabia lidar comigo. Quando eu estava super agitada ela corria, pulava, abanava o rabo para todas as direções possíveis. Quando eu estava triste, ela me trazia um ou dois brinquedos até os meus pés, sentava ao meu lado, repousava a cabecinha no meu colo e ficava quietinha apenas me olhando. Quando eu estava irritada, ela me deixava quieta. Quando eu estava com medo, ela ficava ao meu lado e não me deixava sozinha nem por um segundo, literalmente. Sim, esta é a minha Jessezinha, um ser incrível com um enorme coração pronto para qualquer coisa. Por isso digo que é algo que vai muito além da lealdade. Isso é amor, suporte, cumplicidade, compreensão. Com simples atos ela sempre me fez sorrir, e muito. Ela sempre me trouxe paz. Ela era meu refugio, meu sonho e minha realidade. Uma companheira indescritível. O verdadeiro amor incodicional. 

A Jesse fez parte da nossa história de forma muito intensa. Ela chegou na nossa vida em 2009, quando tínhamos apenas um ano de casados. Na verdade, nós a achamos na rua, abandonada. Cuidamos desta peludinha linda, que veio para a nossa família de forma despretensiosa e acabou ficando para sempre. Muita gente fala que ela foi uma cachorra de muita sorte porque a encontramos na rua, lhe demos uma casa e, portanto uma "segunda vida". Mal sabem todas estas pessoas que é justamente o contrário. Sorte tivemos nós que a encontramos por conta do “acaso”. Acaso este que com certeza já estava escrito. Ela tinha que vir para nós pois era destino tê-la conosco. Nós precisávamos dela. Quem teve segunda chance fomos nós. Só nós sabemos o quanto ela somou e nos mudou. Por isso, a minha gratidão por ela ter feito parte da nossa vida será eterna. Ela veio para nós como anjo. Sempre que precisamos ela estava lá. Nos uniu, nos fortaleceu, nos protegeu. Fomos abençoados em achá-la. Quem ganhou nesta história toda fomos marido e eu, com toda doçura, meiguice, companheirismo, lealdade e tudo que só ela pôde fazer por nós. No passado, hoje e sempre. A Jesse é uma somatória sem dimensão na nossa vida. Cada minuto de dedicação foi pouco por tudo o que recebemos dela. Nunca, absolutamente nunca, serei capaz de agradecer o suficiente. 
 
A Jesse sempre conquistou todo mundo em volta. E isso não é clichê. Ela sempre foi meiga e dócil com qualquer pessoa. Eu admiro muito a falta de discriminação dos cães. Não existe raça, cor, sexo, idade, estereótipo, nada. Todos são iguais e todos merecem uma chance. Com a Jesse era assim. Sempre disposta a oferecer um “sorriso” e um carinho a qualquer um. Educada, extremamente obediente, vivia se aproximando das pessoas c
om um olhar irresistível, até mesmo das desconhecidas. Admito que já passei vergonha por causa disso, afinal, nem todos gostam de cachorros. Mas ela não contava com isso, e qualquer pessoa que passasse por ela tinha que conversar e lhe dar atenção. No fim, ela conseguia tirar sorriso de todos, até mesmo dos mais ranzinzas. Todos no bairro a conheciam, lá no Brasil e aqui no Canadá. As pessoas sabiam quem era a Jesse. Não sabiam meu nome e nem o do Mauricio, mas todos a chamavam pelo nome.

A Jesse tinha uma mania que encantava a todos. Ela passeava com a guia na boca, como se ela mesma se levasse para passear. Admito que isso era algo que ela fazia de forma completamente intencional. Enquanto carregava a coleira, ela fechava os olhinhos com aspecto de olhos puxados fazendo uma carinha meiga tipo “chinês”. E isso chamava a atenção de qualquer um, e claro, ela ganhava carinho como recompensa desta atitude. As pessoas suspiravam quando a viam fazendo isso soltando um “ahhhhhh, que linda” ou “ahhhhhh, she is so cute”. Esperta, ela sabia que todos adoravam isso e era uma ótima maneira de ganhar a atenção. E ela não fazia isso a toa não, era apenas quando tinha o interesse de atrair as pessoas em volta. Bastava alguém a ignorar que ela pegava a guia da minha mão para fazer um “showzinho” que sempre funcionava, resultado, ganhava bastante afago. Este jeito afetuoso dela era reconhecido e infalível.

Para mim e para o Mauricio, ela fazia o mesmo mas de forma mais especial. Quando ela queria a nossa atenção, o que significa o tempo todo, ela apertava os olhos fazendo a tal expressão de “chinesinha” e fazia um som como se fosse um choro, mais parecido com o Chewbacca (do filme Star Wars). Nós até a chamávamos de “Chew”. Enquanto isso, ela nos trazia algum sapato. Era a coisa mais linda!!! Por causa disso, vivíamos procurando nossos sapatos pela casa. Toda a manhã era a mesma coisa: “Jesse, onde você colocou o outro pé da minha sandália?” ou “Cadê meu chinelo, filha?”. No fundo, eu amava aquilo. Sempre achei graça nestas coisinhas dela. Eram atitudes particulares dela sabe?

Ela também era preguiçosa. Às vezes tínhamos que arrastá-la para passear. Eu costumava dizer que a Jesse fazia duas festas na hora do passeio, uma para ir para a rua e outra quando voltava para casa. Aliás, acho que a hora de entrar em casa era até mais legal para ela. E deitar na grama então??? Nossa, se eu quisesse deixar a Jesse feliz, bastava levá-la em algum lugar gramado e deixa-la lá, deitada. Se ela pudesse, passaria o dia todo estendida em um tapete verdinho de grama. Muitas vezes eu estudei em parques só para ficar com ela sob a sombra de uma árvore aproveitando o gramado à disposição. Ela relaxava, deitava de ponta cabeça e passava horas roncando... E eu ficava orgulhosa de proporcionar isso a ela. No fim, era a felicidade das duas.

Sempre companheira, não saia do nosso lado. Se pudéssemos, levaríamos a Jesse para todos os lugares com a gente. Perdi a conta das vezes que deixamos de sair só para ficar em casa com ela. Para nós, isso era o ápice do dia. Ficar em casa, assistindo um filme, só nós três juntinhos. Uma delícia. Sem falar dos passeios que encurtamos para voltar mais cedo para vê-la. Marido e eu curtíamos isso. Sempre tivemos orgulho e alegria da nossa dedicação a ela.


Um amigo nos disse algo que trouxe um pouco de conforto. Segundo ele, os cachorros tem uma vida mais curta do que a nossa, e nesse pouco tempo, eles vem para nos dar amor e carinho e reciprocamente. E é disso que se trata esta relação homem/cachorro. E que no final, a dor da perda é um fardo que tempos que carregar por todo este tempo de amor incondicional dado por eles. Por isso, que todo este sofrimento é justificavél.

Agora, para nós fica a saudade, assim como escrevi para ela:

“(...) Um dia, estaremos todos juntos novamente. Até lá, manteremos as memórias vivas e as lembranças em nossos pensamentos todos os dias. Os sonhos nos aproximarão todas as noites. E mesmo que pareça que estamos distantes, sei que estamos juntinhas, lado a lado. Sinto a sua presença, a sua energia e proteção comigo. E assim Jessezinha, o tempo tratará de nos unir novamente para criarmos mais momentos inesquecíveis e continuarmos contruindo a nossa história. Enquanto isso, fique bem, aproveite toda a sua energia para correr, deitar na grama, ficar de ponta cabeça, fazer festinhas depois de todos os 'treats', curtir ossos, 'greenies', sonhar, brincar e tudo o mais que desejar. Você merece somente as coisas boas, amor, carinho e tudo do melhor. (...)” 

É com muita dificuldade que compartilho aqui no Blog esta passagem da nossa vida. É a primeira vez que falo sobre isso. Até agora, eu não conseguia nem começar a falar sobre esta perda sem cair num choro intendo. 

Hoje, o Mauricio e eu estamos tentando lidar com tudo isso. Temos nos focados ao máximo nas lembranças maravilhosas do que vivemos juntos. Pois sabemos que é disso que se trata o amor que ela nos deu. Momentos de felicidade, apoio, sorrisos, alegrias, companheirismo e muito amor.

16 comentários:

  1. Pri e Mau
    Sou Eduardo, medico brasileiro vivendo em Hamilton na grande Toronto, com minha esposa Marcia.
    Em 2008 no mudamos para Toronto, inicialmente para minha pos graduacao mas acabamos ficando e nos tornando Canadense. Algumas semanas atras descobri seu blog e li todos os posts desde 2012 e, hoje, chorei a sua dor...
    Em 2008 deixamos a Vadi, pastora alema, e a Kawai, labradora, com minha sogra pois, nao tivemos a coragem que voces tiveram...
    Em 2012 a Kawai cruzou o arco-iris e, apenas 1 mes apos, a Vadi decidiu segui-la. Nem eu nem Marcia nunca mais fomos os mesmos; o tempo tornou a dor suportavel mas nao foi capaza de extingui-la; alias nem o quero, e ocasionalmente ainda choro a perda do amor incondicional.
    Nossa vida so nao se tornou em caos porque desde 2010 a Lea, uma Bernese Mountain Dog, trouxe luz para nossas vidas. A Lea tambem me leva para passear com a guia em sua boca. Gracas a Deus no Canada a maioria dos hoteis permite que os peludos fiquem conosco e com a Lea ja dirigimos duas vezes de costa a costa; alias a Lea tem ate carteirinha de cliente VIP na rede Best Western e nem eu nem a Marcia temos!!
    O tempo amenizou a dor mas ainda hoje choramos pela falta delas em nossas vidas. Que Deus de forcas a voces e, sintan-se orgulhosos de tudo que fizeram por seus peludos; nos nao fomos tao corajosos quanto voces. Por favor, continue escrevendo.
    Eduardo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Eduardo e Marcia

      Obrigada pela mensagem.
      Realmente é uma dor indescritível, mas agora vamos ter que aprender a lidar com isso. Fico triste em saber que você também perdeu seus pequenos, e ainda num intervalo de tempo tão pequeno. Mas agora você está bem acompanhado da sua quase nada pequena Lea :) Fico feliz em saber que conseguem fazê-la acompanhá-los em suas viagens. De fato o Canadá facilita muito em termos os cachorros junto de nós em vários lugares. Ainda mais sendo VIP rsssss
      Acredito que agora só o tempo nos ajudará a lidar com esta dor.
      Um abraço
      Priscila

      Excluir
  2. :( :( :( :( :(
    To chorando aqui com o seu post... nossa, como cachorro faz um bem na nossa vida, né? Não gosta nem de pensar em quando os meus forem embora, que já choro também... Força, Priscila e Maurício!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário...
      Infelizmente eles vivem menos do que nós.
      E apesar de sabermos disso, não conseguimos aceitar. Sei que parece loucura, mas é assim. Enfim, agora é sentir a dor da perda...
      Um abraço
      Priscila

      Excluir
  3. Oi Pri e Mau,
    Estou ha 30 minutos sem ter o que falar de imaginar a dor de voces. Muita forca e tenho certeza que voces vao aprender a conviver com isso. Forte abraco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada por suas palavras. Neste momento toda força ajuda muito.
      Um abraço

      Excluir
  4. Estou com um nó na garganta...
    Força!
    Diário Canadá Brasil

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada pela consideração.
      Agradecemos a força.
      Abraço
      Priscila

      Excluir
  5. Oi querida
    Estou aqui chorando sua perda e lembrando das minhas!!
    Ja perdemos alguns "filhos e filhas de 4 patas " e a dor e insuportavel.
    Tinhamos uma cachorrinha chamada Tina que era uma dama;educadissima,Um dia fomos viajar , deixamos ela bem ,em casa com nossa ajudante e ela adoeceu e morreu;quase morremos juntos quando soubemos , em nossa viagem, que acabou naquele momento!!
    Depois de alguns meses , quando chegavamos em nossa casa, que era em um condominio fechado, o segurança nos falou que nossa cachorrinha tinha fugido e estava na portaria ; falamos que nao podia ser pois havia morrido;ai vimos uma cachorrinha amarrada , da mesma raça e cor da nossa...era mais novinha, quase um filhote , e chamamos pelo nome da nossa....a cachorrinha ficou louca ;a levamos para casa e falamos que se alguem aparecesse procurando que nos avisasse .Graças a Deus ninguem apareceu e hoje temos nossa Tina " de volta", apaixonada por nos e vice - versa.
    Que Deus de força para voces superarem esta dor
    Um grande abraço
    ANDRADE JUNIOR

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Andrade
      Realmente a dor é insuportável. As vezes acho que vou ficar maluca...
      Linda a sua história. Fico feliz em saber que hoje vocês tem uma companheira com vocês. A vida é completamente diferente quando se tem 4 patas em volta. Tenho me perguntado como algumas pessoas vivem sem estes peludos. A vida é tão vazia :(
      Agora vamos esperar o tempo passar e nos ajudar a superar a dor...
      Obrigada por suas palavras. Hoje, mesmo sem minha filhinha, fico muito feliz quando vejo histórias como a sua, principalmente por saber que há um cachorrinho (a) fazendo parte de uma família, como a sua "nova Tina".
      Um abraço
      Priscila

      Excluir
  6. Oi Priscila,
    Meus sentimentos pela sua perda. Acompanho o blog e dá pra sentir todo o amor que vcs tinham pela Jesse. Ela era uma fofa!
    Também temos 2 filhos de quatro patas e eles são tudo para nós.
    O seu conforto é saber, como vc mesmo disse, que vcs fizeram tudo por ela, aproveitaram os momentos e o principal - ela era prioridade na vida de vcs.
    Os animais são eternamente gratos e, por isso, vivem menos. O amor incondicional é tão forte que não precisa de 80 anos para ser completo.
    Fico feliz em saber que vc teve forças para escrever novamente.
    Um abraço,
    Vand

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Vand,
      Obrigada por seus pensamentos.
      Eu também acredito que eles ficam pouco tempo com a gente porque são muito mais sábios que nós. De fato eles já nascem sabendo amar, enquanto nós precisamos de uma vida longa para aprendermos como sentir isso... Cabe a nós aprendemos com eles né?
      Obrigada pelo comentário
      Um abraço
      Pri (pode me chamar de Pri sim)

      Excluir
  7. Puxa querida, sinto muito!
    Emocionante o seu post, principalmente por tanta demonstração de amor a Jesse (lindo nome, aliás). Infelizmente, perdas como essa também fazem parte da nossa vida, e só o tempo é capaz de amenizar essa dor. Força!
    bj grande,
    Joice

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Joice,
      Obrigada pela consideração.
      Estamos esperando o tempo nos ajudar agora...
      Beijos
      Priscila

      Excluir
  8. Olá Priscila, eu entendo a sua dor. Perdi meu labrador preto de 2,5 anos, há 5 meses, dois dias após meu aniversário... Ele era saudável, foi de repente, passou mal, levamos na emergência, mas em menos de 24h ele morreu sem sabermos o que era. O pelo dele era preto e brilhava azulado, ele era tão alegre,adorava brincar de bolinha no campo...só sobraram lembranças e muita saudade.

    Segue mensagem de conforto...

    Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
    As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
    É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
    Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
    Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
    O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

    Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

    Grande abraço
    Beliza Jorge

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Poxa Beliza, fico triste em saber da sua perda, também recente. Obrigada pela mensagem e pelo texto. Eu acredito que há dores que devem ser sentidas mesmo. O tempo nos faz entender tudo...
      Um abraço
      Priscila

      Excluir