terça-feira, 8 de dezembro de 2015

- O paradoxo do imigrante

 

Quis viver longe de casa?
“Get over it, princess. If you can...”

É engraçado como a vida nos prega peças… Eu tenho plena convicção de que não temos controle sobre a vida. Por nossas decisões sim, mas as consequências… aaah as consequências… estas nem sempre são como esperadas. A gente vai lá, faz planos, estuda possibilidades, lê a respeito, pensa nos pros, nos pros novamente (porque os contras geralmente a gente deixa de lado), e finalmente opta por um caminho quase que certo. E mesmo que a trajetória esteja seguindo rumo ao esperado, existe aquela sensação de que algo está faltando. Parece que tem um espaço para completar. A gente corre, corre, corre e corre mais um pouco para tentar alcançar metas e viver um sonho. Vamos completando as lacunas como se a vida fosse um quebra-cabeça. E mesmo que você tente ser um super herói para ter tudo o que quer, tem a sensação de que ainda há um fragmento deste puzzle em aberto. Aí você se dá conta de que tinha razão e realmente ainda tem uma peça faltando, e o pior, que sempre haverá um espaço em branco, um vazio que nunca será preenchido.

Gente, eu não estou louca, não virei escritora e nem poeta.  Também não estou querendo fingir ser terapeuta. Apenas percebi que vivo um eterno paradoxo. E por que isso? Porque eu sou o tipo de pessoa que gosta de olhar para frente e enfrentar a vida. Sabe aquela história “é melhor se arrepender de ter feito do que de nunca ter tentado”? Pois então, sempre segui este pensamento. Na dúvida, é melhor fazer! E nem precisa mencionar que viver em outro país foi uma destas decisões de “arriscar” e tentar o desconhecido. “Vamos lá Priscila, corre que a vida está aí para te dar a chance de tentar.” E tudo isso é muito legal, viver criando experiências dia a dia. Mas agora que estou aqui, percebi que estarei incompleta mais do que nunca. Viver no Canadá significa estar sem a minha família por perto. Voltar para o Brasil, implica em abrir mão do meu novo modo de vida. Não tem jeito, os dois eu nunca terei. E de agora em diante, viverei arrependida de qualquer maneira, ou por ficar aqui ou por voltar. 

Eu percebi que quanto mais exploramos, mais descobrimos. Quanto mais experiências passamos, mais crescemos. Mas quanto mais vivemos, mais incompleto ficamos. Não parece loucura??? De agora em diante, além de agradecer as oportunidades, eu também lamentarei pelo o que não vivo. Agora sentirei o eterno arrependimento de estar aqui ou lá, de ficar ou voltar. Aqui, sentirei a dor da ausência dos meus pais na minha vida e, a minha ausência na vida deles. Do tempo estar passando para todos… Claro que isso pode parecer insensatez, mas quando deixamos o país, por algum motivo inexplicável, temos a sensação de que só nós estamos mudando. Parece que o tempo só passará para nós. No fundo, é o que queremos. De forma egoísta, eu queria mesmo era poder parar o tempo para as pessoas que eu amo para que sempre estivessem ali, do mesmo jeitinho que estavam quando vim embora. Quando decidi imigrar, eu estava determinada em olhar para frente. Eu não quis olhar para trás. Me foquei no que ganharia. Não imaginei o que perderia. O fato é que eu não quis ser realista. Evitei enfrentar a verdade. Todo mundo fala das dificuldades de adaptação, do idioma, da cultura. Eu mesma só falo nisso. Mas a maioria das pessoas evitam se aprofundar na maior dificuldade, que é viver longe da família. A gente menciona isso de forma muito superficial como se fosse algo administrável. Não é. A verdade pura e simples é que não sabemos lidar com esta ausência. Todo mundo já ouviu falar que a palavra “saudade” é exclusiva da língua portuguesa. E quer saber? Nem no português e nem em nenhum idioma existe uma palavra capaz de explicar esta falta. Não é saudade, não é “missing”, não é distanciamento, não é nada disso. É algo mais forte. 

Eu procuro razões para ficar, porque isso é algo que eu realmente quero. É uma proposta que fiz a mim mesma, um desafio que tem agregado muito à minha personalidade e visão do mundo. Quero ficar. Mas sei que lamentarei por isso. Se voltar, arrependerei-me também. 

De agora em diante, viverei a insatisfação de estar incompleta. A dúvida viverá comigo, as possibilidades condicionais estarão presentes, a ausência já faz parte de mim. Não importa onde eu vá, onde eu esteja, quanto mais eu viver, mais falta eu vou sentir.

Vale mencionar que eu havia escrito este post há um ano atrás, e que na verdade era bem mais longo. Mas hesitei em publicá-lo pois era algo muito pessoal e talvez eu estivesse me expondo demais (como se isso fosse possível). Aí outro dia li um texto que descrevia muito bem o que eu sentia sobre o mesmo assunto. E assim, percebi que eu não era a única a pensar desta maneira. Por isso, acabei cortando grande parte do que eu havia escrito para dar espaço ao texto que me confortou. Não porque resolveu o meu problema, mas porque me fez sentir mais “normal”. 

Abaixo compartilho os pensamentos que passam pela minha cabeça através de uma publicação feita pela autora Ruth Manus. Vale a pena a leitura. Faço destas palavras as minhas, literalmente, sem exceção.

Obrigada Ruth Manus, pelo texto sutil e delicado de um assunto tão difícil...
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Muito além do valor do aluguel.

Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.

Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. O patinete. A Harley. O Boeing 737. E a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando a gente percebeu que poderia ir sem data para voltar.

E assim começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.

A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.

E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessa virão.

Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?

Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do whatsapp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?

Será que a vida será sempre esta sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja? Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa? Será teste, será opção, será coragem ou será carma?

Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo? Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?
Eu sei que não é fácil. E que admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia.

Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo pra ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai.

O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado. Keep walking.
(MANUS Ruth, O alto preço de viver longe de casa, 24/06/2015)
Para ler a publicação original, clique aqui.
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17 comentários:

  1. Olá Pri... olha, vou ser bem sincero.. a 1ª vez que li seu blog, achei ele bem chato, por eu achar que tinha muita reclamação (na verdade tinha apenas realidades).

    Mas, ao ler os outros que você escreveu, essa impressão acabou e agora acho seu blog uma das leituras mais realistas e agradáveis para quem está pensando em ir morar no Canadá.

    Parabéns! Quando vejo que seu blog tem novos textos, clico logo para ler o que você escreveu.

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    1. Ola Felippe
      Sabe que às vezes eu também acho que sou negativa?! E o engraçado é que eu não quero ser pessimista, mas a fase inicial é difícil e tenho tentado ser realista. Como já falei anteriormente, se aqui fosse ruim, eu já teria ido embora. Só estou tentando não fantasiar, o que na verdade é algo que tenho feito para mim mesma como forma de me manter centrada e focada no que vem ali na frente. Eu espero um dia ler todo este diário e lembrar das sensações que eu sentia em cada passagem desta fase.
      Espero começar a mudar aos poucos a minha vida por aqui e refletir isso no blog.
      Obrigada pela sinceridade
      Um abraço
      Priscila

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    2. Não, mas não quis dizer que vc é negativa não. Se foi isso que entendeu, desculpe.

      Acho que nosso subconsciente, ou talvez o consciente mesmo, queira ver apenas coisas bonitas e o seu trata a realidade como ela é, e gostei disso.

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  2. Pri sensacional, vc talvez não saiba vc é usada por Deus para tocar pessoas. Bom, estou aqui há exatos 15 dias e hj acordei pensando muito nisso, esta questão toda abordada, ler pode não sanar, mas conforta saber q não somos únicos a padecer nesse perder para ganhar, nessa troca maluca chamada vida. Tks Sibelle

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    1. Olá Sibele
      Compartilhar situações e contradições sentimentais semelhantes e saber que tem mais gente nessa, faz eu me sentir normal :)
      Fico feliz em confortar um pouquinho ;)
      Um grande abraço
      Priscila

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  3. Eu me identifico muito com seu post, eu morei em outros dois países anteriormente, um eu não podia ficar por conta do visto, o outro eu sofri tanto em ficar longe da família e da saudades que resolvi voltar. E agora estou esperando meu processo de imigração sair pra me aventurar. Só que eu sou o tipo de pessoa que larga tudo e recomeça. Se eu sentir saudades eu volto, se eu não aguentar mais vou pro Canadá, Eu sou assim, um poço de inconsistência, me arrependo de umas coisas e não me arrependo de outras. Só fico, não arrependida, mas imaginando as tais consequências se tivesse feito escolhas diferentes! Forte abraço

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    1. Olá Rita,
      Ter a mente e o peito aberto para novas experiências é o que nos faz viver intensamente. Ainda não sei se somos loucas ou corajosas. Mas quer saber? Isso não faz diferença, afinal, a vida está aí...
      Boa sorte na sua próxima experiência
      Um abraço
      Priscila

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  4. Já estou com o visto na mão. Agora só depende de mim dar o primeiro passo. Confesso que em meu subconsciente venho tentando ignorar que tudo isso que você expôs não vai me afetar. Tenho tentado nem pensar, refletir em como vai ser quando tudo isto acontecer comigo. Inútil. Tenho que encarar os fatos. Muito muito muito obrigado pelo seu texto. Me ajudou e me ajudará muito!!!

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    1. Ola Diogo
      Eu sempre digo que quanto mais realista a pessoa for, mais fácil será encarar a vida aqui. Mas para ser sincera, em relação a esta história de vir ou ficar e de estar perto ou longe da família, eu sugiro não pensar muito. Nestas horas é melhor ir em frente...
      Boa sorte
      Um abraço
      Priscila

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  5. Vera (Nova Zelândia)11 de dezembro de 2015 01:33

    Oi Pri...
    Muito boa sua reflexão, vc sempre se supera! Com certeza não está sozinha nesse barco... Nós estamos aqui na Nova Zelândia quase um ano e claro que essas questões são as que tem o maior peso em nossa vida. Mas como cristãos que somos, acreditamos que os sonhos nascem primeiro no coração de Deus e como colocamos o controle de tudo nas mãos DELE (claro, fazendo a nossa parte), ELE sempre vai nos levar onde sua graça, benção e proteção pode nos alcançar. Todos os dias quando oramos em família, pedimos por todas essas coisas e sentimos Paz em nossos corações. Eu não tenho dúvida, assim como a Sibele, que você é um instrumento maravilhoso de Deus. Obrigada por compartilhar suas conquistas e suas angústias. Te admiro muito!! Grande Abraço e Deus te abençoe sempre!

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    1. Olá Vera
      Eu estava sentindo falta dos seus comentários, que são sempre confortantes. Outro dia ainda eu estava pensando "como será que a Vera está lá longe na Nova Zelândia". Escreve contando um pouco de como as coisas estão indo.
      Beijos
      Priscila

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  6. Realmente Priscila vc é bem realista e compartilho desse mesmo sentimento. A angústia de viver longe dos pais é um tormento na vida de um imigrante. Cheguei em Toronto há 6 meses e lendo seu blog parecia que era eu quem tinha escrito. Estou no início dos meus perrengues no Canadá e confesso que haja coração para imigrar. São tantos desapegos, apegos, novidades, desafio, angústia, lágrimas, risos, ilusão, desilusão, mal entendidos entre outros sentimentos que somente vivendo para entender. Esses 6 meses sem a menor dúvida foram os mais intensos da minha vida. Mas como já disseram, Deus não coloca uma vontade nossos corações se não for para dar certo. Beijo e continue escrevendo sua realidade, pois sua realidade é a nossa também. O que difere é que alguns contam só a parte boa e outros como vc mostra a real. E para quem quer imigrar é interessante ver a realidade.

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    1. Olá Cibelly
      Fico feliz em saber que meu "excesso" de realidade conforta algumas pessoas, sem assustar muito. Força aí deste lado porque agora é viver numa montanha-russa de emoção.
      Um abraço
      Priscila

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  7. Oi Priscila ! Me identifiquei com varios dos seus pensamentos. Eu parei de escrever durante 3 anos no blog pois nao queria passar uma visao irealista para as pessoas. O meu post sobre meu primeiro ano no Canada eu nunca publiquei. Me afastei para viver esse momento de adaptaçao que para mim, foi muito dificil. Agora voltei e me faz muito bem poder falar destas experiências. Acho que sao coisas que precisam ser faladas...legal ver que você também pensa assim!

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    1. Ola Roberto e Mari
      Escrever é algo que faz bem, para nós que escrevemos e para quem lê. E sabe o que acho mais legal? Poder ler coisas do passado e ver como eu enxergava e vivia cada momento. Fico feliz que você também esteja compartilhando sua história. Espero que a fase difícil esteja passando :)
      Um abraço
      Priscila

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  8. Oi Priscila...Gostei muito desse texto...achei muito franco e sensível da sua parte...Eu estou no meio do meu processo para a mudança, mas tenho amigos que já foram, e já conversei bastante com eles a respeito disso, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, ou pertencer aos dois lugares, rsrs...O meu maior medo é que eu vou com minha filha de 7 anos, e não quero que ela se sinta descolada e sozinha...Espero que quando esse pensamento aparecer você se sinta confortada, e espero que quando esse pensamento aparecer pra mim eu também me sinta...Abração!!!

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    1. Olá Jairo
      Não vou te dizer que a gente se acostuma com o saudade, mas digo que aprendemos a lidar com ela. Às vezes ignoramos, outras sofremos em dobro. Mas parece que isso faz parte. Conheço pessoas que voltaram para o Brasil por causa disso. Mas de maneira geral, a gente vai levando. E quanto a sua filha, apesar de eu não entender muito de criança, pelo o que ouço em volta, as crianças se adaptam muito melhor e bem mais rápido. Acho que será mais fácil para ela do que para você. De qualquer maneira, boa sorte. Espero que você encontre aquilo que busca ;)
      Um abraço
      Priscila

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